© Gabriela Ruivo Trindade

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© Gabriela Ruivo Trindade

Tuesday, 27 February 2007

Malinche, de Laura Esquível

Esta história é sobre a língua. A língua e o seu poder. Ao nomear as coisas à sua volta, ao dar significados ao mundo que há em cada coisa, os homens ganham o poder dos Deuses. Cada signo, cada símbolo, torna-nos senhores do universo que é a palavra, por ela nos apropriamos do que nos rodeia e transformamos tudo à nossa volta. A língua tem o poder de criar uma nova paisagem sintáctica, de reinventar, reordenar, renomear. A língua é o que nos liga ao mundo dos outros, das pessoas à nossa volta, e nos põe no centro da sua comunicação universal. Pela palavra podemos criar, podemos nascer, podemos remexer, podemos ferir, podemos matar. Tal e qual como um lavrador semeia a terra, tal e qual como a chuva traz a vida, tal e qual como a enxurrada traz a fúria das águas.

Esta história é sobre o poder divino da palavra. Sobre a forma como os Deuses falam através dos homens e das mulheres. Os Deuses são o poder mais alto da própria natureza. A natureza do homem e dos Deuses pertence à vida e está em perfeita harmonia com o cosmos. Os Deuses estão na água, que é o símbolo máximo da vida. Estão no sol, que permite que essa vida renasça e se recrie constantemente. Estão no milho, fruto do sol e da água, alimento da alma e do pão que alimenta o corpo. Estão na terra que nos viu nascer e que nos servirá de morada um dia. Estão dentro de nós, que os alimentamos e criamos nos rituais diários da vida.

Mas esta história é também a história do Homem e das suas conquistas. A história do sangue e da luta. A história da crueldade assassina. A história do massacre. Da morte e das feridas mais atrozes da Humanidade. É a história do poder do Homem usurpando o poder dos Deuses. É a história dos povos em busca do ouro, do ouro que os tornará Deuses na terra. É a história da humilhação, da raiva, da vergonha. É a eterna história dos mais fracos e dos mais fortes.

É também a história de uma mulher desesperada. Uma mulher que tem uma arma poderosíssima mas não sabe como a usar. Uma mulher que sonha, que busca, que espera, que deseja, que acredita, que não desiste. Uma mulher que está rodeada de morte, mas que sempre consegue enxergar a vida. Que sente que pode mudar a vida, mas não sabe como. Que sofre horrores, que tem dores e feridas no corpo e na alma, e que não esquece nenhuma delas.

Mas é também a história de um amor. Um amor forte, esmagador, feito de angústia e de fogo. Um amor que consome a carne e a alma. Um amor que une um homem e uma mulher completamente diferentes na essência, e os leva lado a lado por caminhos que nem um nem outro sabem como pisar. Um amor que sufoca, que envenena, que submete. Um amor que prende, que ata, que asfixia. Um amor violento, dominador, egoísta. E no entanto, um amor puro e inocente, como todo o amor. Nascido de um sonho muito antigo de protecção e carinho.

A história da morte, a história da vida, a história do sofrimento, da guerra, do terror. Dos que sofrem e dos que fazem sofrer. Dos que abandonam e dos que são abandonados. Dos que matam e dos que morrem. Dos que humilham e dos que são humilhados. Dos que violam e dos que são violados. E muitas vezes ela confunde-se, sobrepõe-se, une-se dramaticamente num laço apertado de sofrimento e raiva. Quem abandona já foi abandonado. A história sucede-se, as vidas nascem e morrem, as estradas estão cheias de mortes que vamos deixando pelo caminho, de vozes que nos acompanham desde crianças, de mágoas que não sabemos nem podemos lavar. E é ela, a água, que nos lava, que escorre dos rios e das chuvas e nos germina o peito de esperança, que arrasta o sangue dos corpos feridos a seguir ao massacre e inunda com a sua seiva os campos em redor.