© Gabriela Ruivo Trindade

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Friday, 2 May 2008

A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Záfon

Depois deste livro, parece-nos que não existe outro livro nem outra estória. Não pode haver. Não é que não estejam lá, todos os outros grandes escritores e as grandes estórias que já lemos, as que ainda não lemos e as que nunca leremos, porque estão, entram pela janela e invadem a teia das palavras que nos rodeia, como aquela luz rara que de vez em quando nos acaricia o olhar cansado de tanta frivolidade. Aliás, não fosse esta estória uma estória de livros, com muitos livros, milhares deles, dentro dela, repousando para sempre nas estantes do Cemitério dos Livros Esquecidos, que de esquecidos só têm mesmo o nome ou a simples impossibilidade numérica de os ler a todos.


Mas, inexplicavelmente, todos esses grandes livros que nos povoam o imaginário parecem de súbito, criação deste. Entendemos, portanto. Tudos o que lemos anteriormente, seria, então, um caminho que nos levaria aqui. A este livro. E daqui o caminho que se abre ganha uma outra luz, depois deste. Porém, nos minutos seguintes, não queremos acordar do sonho. Parece-nos que nunca mais leremos nada assim. Não temos vontade de ler mais nada. Como se os outros livros não passassem disso mesmo, deoutros livros, ao passo que este é o livro, o único, como pode ser única uma folha de um grande castanheiro, uma só folha, que, por acaso, tem aquela cor que nos enfeitiça como nenhuma outra. Esta estória marca-nos,como se fôssemos eternamente jovens. É na juventude que os livros deixam mais marca, porque em nehuma outra época da vida o deslumbramento é um gesto tão espontâneo. A nossa vida de leitores fica dividida ao meio: a.S. e d.S. - ou seja, antes da Sombra e depois da Sombra. Que sombra? A do Vento. Sem dúvida.