© Gabriela Ruivo Trindade

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© Gabriela Ruivo Trindade

Monday, 16 February 2015

O Último Natal

A mulher olha a árvore de natal em silêncio.

O marido está morto há muito; os filhos, num país distante. Ou terá sido ela que se ausentou para parte incerta, não tem a certeza.

As velas com aroma a canela e tangerina luzem na solidão da mesa posta. Quatro pratos dispostos geometricamente, os copos altos em que a luz sanguínea de um Porto velho arde juntamente com as velas. O fumo dança no silêncio que se abate nos pratos vazios.

A fruta na cristaleira adquire tons de ébano.

Os minutos escorrem, vagarosos. Da casa vizinha chega-lhe o burburinho de vozes, garfos e facas em laborioso fragor, gargalhadas a espaços com o tilintar dos copos que ela adivinha de pé alto, elegantes, reluzindo a textura suave dos vinhos espumantes.

E de súbito está à volta da mesa, na casa dos avós, acompanhada por aqueles que tão bem conhece, metade já mortos, mas ainda a sorrirem-lhe do espelho da memória. O espelho falso, mentiroso, da memória.

Podia começar tudo de novo, pensa, enquanto se deixa inebriar pelo brilho das luzes. Por que raio montou, afinal, o pinheiro?

Fecha os olhos e deseja com muita força ter nascido outra pessoa. Se desejares com muita força, as coisas acabam por acontecer, diziam-lhe em criança. Mas tens de desejar com a alma. E quem não tem alma? Pede uma emprestada?

Pergunta estúpida. A mulher levanta-se e vai até à porta. Com gestos lentos, veste o casaco e tapa a cabeça e o pescoço no aconchego da lã. Lá fora a neve cai silenciosa.

Em casa deixa o silêncio nos pratos vazios.

A noite está deserta. Das janelas vislumbra o incêndio dos pinheiros artificiais. Ao chegar ao fim da rua, começa a subir a colina, em direcção ao parque. No cimo, o coração é uma dor vermelha, a pulsar-lhe dentro de um glaciar. Acaba por se deixar cair junto a um carvalho. A dor segue-se à sensação de dormência. Sabe, todavia, que durará apenas alguns minutos. Quando a manhã trouxer as gargalhadas das crianças, quem sabe não a confundem com um boneco de neve? E é com este pensamento que fecha os olhos.

(conto publicado na Revista Sábado de 23 de Dezembro de 2014)