© Gabriela Ruivo Trindade

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© Gabriela Ruivo Trindade

Monday, 7 September 2015

O que os olhos não vêem e o coração não sangra

Há pessoas que se recusam a olhar a fotografia do menino caído à beira-mar e de mais umas quantas vítimas mortais daquela que é considerada a maior vaga de refugiados desde a Segunda Grande Guerra. Não as condeno. A mim também me provocaram calafrios e uma tremenda angústia as imagens, desse e de tantos outros cadáveres que o mar deu à costa, e que proliferam pelas redes sociais. Mais, procuro compreender: olhar essas mortes, sabendo que foram provocadas por situações de violência levadas a cabo por outros seres-humanos, é, quem sabe, olhar também a culpa de pertencer a essa mesma humanidade, capaz de tais atrocidades. Ou o sentimento de impotência é de tal forma assustador que não conseguimos encarar, mais uma vez, a culpa de nada fazermos para impedir tal horror? As razões para tal recusa, decerto, serão tão diversas quantas as diferentes emoções que possam ser despertadas em cada um de nós pelas ditas imagens e não tenho a pretensão de conhecê-las melhor do que os próprios.

Acho, no entanto, que essas pessoas deviam, ao menos, ter noção do enorme privilégio que representa a sua escolha. As vítimas que não encaramos não tiveram escolha. O que tinham diante de si não era uma fotografia mas a vida real a acontecer. Tão-pouco os milhares de refugiados em fuga têm escolha. As populações que vivem em cenários de guerra, que presenciam tiroteios, explosões, assassinatos, chacinas, banhos de sangue, pura e simplesmente não se podem recusar a ver. Está a acontecer diante delas. O espectáculo da destruição massiva, do massacre humano, é terrível, é bárbaro, é uma agressão constante a toda a humanidade – e dentro dessa humanidade há um grupo que pode desligar o botão ou simplesmente olhar para o lado – não olhar – e outro, o dos envolvidos. Não é possível desligar os sentidos. Quem lá está assiste, quer queira quer não.

 Para nós, que podemos desligar, desviar o olhar, não ver, é apenas isso, uma questão de escolha. Uma escolha que é um enorme privilégio. Precisamos ter noção disso. E se calhar devíamos ter também outra noção: a de que, porventura, pessoas a quem é dado o imenso privilégio de escolher, deveriam optar conscientemente por olhar, por ver, ainda que engolindo as lágrimas, ainda que à custa de muita angústia e inquietação, ainda que tremendo por dentro. Encarar o horror exige um esforço descomunal, sim; mas se todos, sem excepção, não tivéssemos escolha, tal qual as vítimas desse mesmo horror; se as imagens nos entrassem porta adentro, todos os dias, sem que nada pudéssemos fazer para impedi-lo; se cada um de nós pudesse sentir na pele toda e qualquer agressão a cada ser-humano em particular, uma vez que a humanidade partilhada nos constituísse num só corpo, quem sabe isso não provocaria uma revolução; aquela que seria necessária para decretar tolerância zero em relação à violência extrema de situações como esta.

 Some people refuse looking at the photograph portraying a dead child on the shore and many others of deceased victims from what has been considered as the worst refugee crisis since the Second World War. I don’t condemn them. Personally I too shivered and felt enormous anguish watching those images of several corpses brought by sea tides; images that have gone viral on social networks. Furthermore, I try to understand: to face those deaths, knowing that they were caused by extreme violence perpetrated by human beings is, perhaps, like facing our own guilt of belonging to the same human race capable of such atrocities. Or maybe the feeling of impotence is so frightening that leave us incapable of facing, once more, the guilt of doing nothing to prevent the horror? The reasons for such refuse, however, will be as many as every different emotion that those images may awake in every single individual and I don’t presume to know them all any better than the people themselves.

Nevertheless, I think that those people ought to bear in mind the notion of the privilege that their chance of choice represents. The victims who we refuse to face didn’t have a choice. What was before them wasn’t a photograph but life itself. Neither the thousands of refugees have a choice. Populations who live in war scenarios, who endure shootings, explosions, murders, slaughter, bloodbath and the sort, cannot simply refuse themselves to see. It’s all happening before them. Massive destruction and human massacre is a horrendous, barbaric spectacle and represents a constant aggression towards humanity in general – though, inside that humanity there’s a group of people who can turn off the button or simply looking elsewhere, and another group, that of the people involved in the tragedy. Senses cannot be unplugged. Whoever is there is forced to look, liking it or not.

For those like us who can unplug, divert our eyes and not look, it’s simply a matter of choice. A tremendous privilege. We must be aware of that. And maybe we should also be aware of something else: that people who are given the privilege of choice should, perhaps, choose consciously to look, to see, even through swallowing tears, dreadful anguish, uneasiness and shivers. To face the horror demands a devastating effort, for sure, but what if everybody on earth, like the horror’s victims, had no choice? What if those images we refuse to see crossed our threshold everyday and we could do nothing to avoid it? What if each one of us could feel on their own skin every single bit of aggression towards every single human being on earth, given that the wholeness of humanity would allow us to share only one universal body? That might, who knows, trigger the revolution we need to decree zero tolerance to extreme violence.