© Gabriela Ruivo Trindade

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© Gabriela Ruivo Trindade

Thursday, 8 March 2018

A mulher do outro lado do espelho

Não sei o que se passa com os espelhos desta casa. Nunca me devolvem a mesma imagem. Às vezes descubro o rosto de uma mulher jovem, muito mais jovem do que eu. É bonita e sorri-me. O sorriso dela tem a limpidez da primeira luz da manhã. O corpo também é jovem e tem aquela frescura que descobrimos no ventre da fruta madura. Gosto de olhá-lo, e de namorar com ele. Namorar apenas com o olhar. Habitá-lo como se fosse a minha casa. Fingir que não é meu, e que não sou eu que o olho, mas o olhar do desejo. Desejar exige distância. De outras vezes, é uma mulher velha que me olha. Cabelos grisalhos, rugas ao canto dos olhos e costas cansadas. Adivinho-lhe o olhar tingido de um cinzento matizado onde se entrelaçam dores muito antigas. Vêm-me à memória os novelos de linha matizada com que a minha avó crochetava naperons de renda para a mesa da cozinha e para o cesto do pão. Dura apenas breves instantes, este relâmpago. A mulher velha não sorri, apenas me fita; os seus olhos, porém, não se detêm em mim, atravessam-me como uma seta, evitam os meus como se tivessem medo. Ou talvez o medo seja meu. De outras vezes, ainda, encontro a face rechonchuda de uma mulher gorda. As carnes da mulher gorda avolumam-se nos meus olhos. Tem um sorriso patético e triste. Parece ainda escutar a voz da mãe: Ao que te deixaste chegar, Maria! A voz da mãe, num misto de compaixão e repugnância. Mas também a ela a gordura do seu corpo a embaraça. Há gente para quem olhar uma mulher gorda é o mesmo que ser insultada por ela. Essas pessoas, se tivessem poder para isso, inventariam uma lei que proibisse os gordos de saírem à rua. Naturalmente, construiriam lares e casas de acolhimento onde estes se pudessem albergar longe dos olhos do mundo. Tudo com as máximas condições de comodidade, evidentemente. Coitados, no fundo são doentes, pensam, num misto de piedade e alívio por não ser contagiosa, esta doença. Nesta altura a mulher do outro lado do espelho despe o sorriso triste juntamente com a roupa e devolve-me a sua nudez, sem pudor. Olho o seu corpo, incrédula, onde descubro a frescura e a languidez das formas de uma mulher madura. Uma mulher da minha idade. Sorrio, e namoro-me, piscando o olho ao espelho, que novamente se diverte a iludir-me a percepção. Os meus olhos deixam de ser meus. Na-morar é outra forma de morar. Morar dentro, e fora de nós. Dentro, e fora do outro. Porque só quando amamos percebemos que dentro e fora se confundem.