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O Último Natal

A mulher olha a árvore de natal em silêncio. O marido está morto há muito; os filhos, num país distante. Ou terá sido ela que se ausentou para parte incerta, não tem a certeza. As velas com aroma a canela e tangerina luzem na solidão da mesa posta. Quatro pratos dispostos geometricamente, os copos altos em que a luz sanguínea de um Porto velho arde juntamente com as velas. O fumo dança no silêncio que se abate nos pratos vazios. A fruta na cristaleira adquire tons de ébano. Os minutos escorrem, vagarosos. Da casa vizinha chega-lhe o burburinho de vozes, garfos e facas em laborioso fragor, gargalhadas a espaços com o tilintar dos copos que ela adivinha de pé alto, elegantes, reluzindo a textura suave dos vinhos espumantes. E de súbito está à volta da mesa, na casa dos avós, acompanhada por aqueles que tão bem conhece, metade já mortos, mas ainda a sorrirem-lhe do espelho da memória. O espelho falso, mentiroso, da memória. Podia começar tudo de novo, pensa, enquanto se deixa inebriar pel...

We should all be feminists, by Chimamanda Ngozi Adichie

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Também na literatura homens e mulheres são lidos com diferentes olhos. Quando um homem escreve uma estória de amor, por exemplo, impressiona, demonstra que é inteligente e sensível, sendo este último atributo considerado fora do mundo da masculinidade. Quando uma mulher escreve sobre o mesmo tema, está a fazer apenas aquilo que se espera dela, e, por isso, não impressiona ninguém. Para o conseguir terá de fazer um esforço acrescido para demonstrar que é inteligente e culta, para além de sensível e emotiva. Há pouco tempo, por altura do aniversário de Chico Buarque de Holanda (que eu adoro, note-se), muito se falou do seu sucesso como cantor, compositor e poeta, e o que se ouvia andava quase sempre à volta dos mesmos comentários: a forma única e brilhante como ele consegue descrever os sentimentos de uma mulher. E agora pergunto eu: se aquelas letras fossem escritas por uma mulher, teriam por acaso menos valor? Definitivamente acho que não, mas tenho para mim que se esse fosse...

Grandes Males, Grandes Remédios

Quando descasco e pico cebola, ultimamente, noto que os olhos já não ardem tanto. Não sei se é impressão minha, mas lembro-me de quando chorava baba e ranho com a mesma actividade. Uma vez ou outra lá acontece e então começo a desconfiar de que há várias qualidades de cebola, consoante o potencial lacrimejante. Aliás, lembro-me de ter ouvido ou lido, na televisão ou no jornal, que a investigação em modificação genética iria proporcionar, em alguns anos, um descascar de cebola isento de lágrimas. Foram estes pensamentos que me trouxeram o mote para esta estória. Dona Mínima vivia lá nos fundinhos dos campos, muito depois de se atravessar o ribeiro e de a estrada de terra se perder em carreiros de mal traçados pés. Vivia numa casa de pedra, de idade desconhecida, que parecia ter nascido da terra como as árvores e os sonhos. As paredes confundindo-se com as rochas, convertidas em sagrados monumentos graníticos. Para lá chegar, tinham de se percorrer caminhos incertos, no meio dos vales, t...

O Escritos & Escritores, em Avis

Sexta feira, 17 de Outubro. Viagem Lisboa – Avis. Chegámos pela hora do almoço. O Clube Náutico tem uma vista deslumbrante sobre as águas da albufeira. A comida é caseira, muito bem confeccionada. Durante o almoço, travámos conhecimento com alguns dos membros da ACA – Amigos do Concelho de Avis que tão bem nos acolheram durante o fim-de-semana que durou o encontro. Eu e Fernando Dacosta éramos os primeiros convidados a chegar. Fernando Dacosta está sempre a contar histórias. Para além de conhecer praticamente todos os nomes da grande literatura contemporânea, conviveu com figuras como Agustina Bessa Luís, Natália Correia, Agostinho da Silva, Ramalho Eanes, Raul Solnado, só para citar uns poucos. Chegou mesmo a entrevistar Salazar, o que lhe traz um manancial de histórias de que jamais me cansarei de ouvir.  A tarde de sexta feira estava reservada às escolas. Fui para a Escola Básica nº 3 Mestre de Avis, onde fui calorosamente recebida na Biblioteca Escolar. A conversa com os miú...

Estrangeira

Acho que desconhecia o verdadeiro significado desta palavra até ao momento em que percebi que não só as pessoas à minha volta falam uma língua diferente: os gatos, os cães, as vacas, as ovelhas, os cavalos, também. É verdade, toda a criação fala uma outra língua. A primeira vez que tomei conhecimento do facto foi com um simples espirro. Estava numa aula de inglês, onde aprendíamos algumas canções, e uma delas era a famosa: "Ring-a-ring of roses  A pocketful of posies  A-tishoo! A-tishoo!  We all fall down..."  Estava a preparar-me para perguntar o que queria dizer aquela palavra esquisita, "A-tishoo!" , quando de súbito os meus ouvidos entenderam, ao ouvir a música numa gravação. Afinal era um espirro! De então para cá a surpresa tem sido constante e completa: os cães, nas raras vezes em que ladram, não fazem ão, ão! nem tão pouco béu, béu!, mas sim ruff, ruff! ou woof, woof! O miar dos gatos nem destoa assim tanto: em vez do miau, fru fru, temos um meo...

My darling

Em Inglaterra toda a gente se chama de querido sem se conhecer de lado nenhum. É perfeitamente natural utilizar o dear em contexto formal, nomeadamente nas cartas em que nós apenas nos atrevemos a utilizar o V. Exa para cá e o Exmo. Sr. para lá. Mas as coisas não ficam por aqui. Quando o carteiro vos traz uma encomenda registada, e se despede com um see you, sweetheart, não precisam de corar. E se a senhora do centro de saúde nos brinda com um my darling no meio da troca de palavras que medeia encontrar a nossa ficha no computador e fazer o registo, não, não está a atirar-se a nós. É que aqui toda a gente se trata assim, é normalíssimo! Ao princípio estranhei, até pensei que não tinha ouvido bem. My dear? Ele disse my dear?, pensei, enquanto falava ao telefone com um funcionário da British Gas. Imaginem o que é telefonarem para a Portugal Telecom ou para a EDP e de lá dizerem, Oh, querido, obrigada por ter esperado! Ou na farmácia o empregado dizer: Aqui está o seu pedido, amor, de...

O homem do xadrez

Ficava horas intermináveis sentado à mesa daquele café, tendo por única companhia um tabuleiro de xadrez. Jogava. Em silêncio, lentamente, como quem peneira a luz da tarde até esta se transformar em poeira fina de estrelas, lançada para cima do incêndio do crepúsculo. E assim o tempo passava, como passavam os burros no calor da estrada, lá fora, carregados de sacas a abarrotar de cereais e legumes, acompanhados por homens de idade curvilínea; ao mesmo tempo que a tarde se demorava nos pequenos remoinhos de vento seco que levantavam a poeira do chão. Jogava sozinho. Movia uma peça, e depois, com um suspiro, tomava a posição do adversário. Mas não se limitava a tomar o lugar do outro; aquilo exigia uma transacção plena de estados de alma. Para nos defrontarmos connosco próprios precisamos de vestir a pele do inimigo, dizia para os seus botões, enquanto os desabotoava. O xadrez é muito mais do que um jogo inocente de estratégias; o xadrez, é, acima de tudo, a essência da estratégia. Estr...