© Gabriela Ruivo Trindade

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© Gabriela Ruivo Trindade

Sunday, 4 November 2018

II Antologia de Poetas Lusófonos na Diáspora



A II Antologia de Poetas na Diáspora já se encontra disponível na loja online da Oxalá Editora:

https://www.oxalaeditora.com/livraria-shop/

Os autores desta antologia são Gabriela Ruivo Trindade, Rosana B. L. Bouleh, António Barbosa Topa, São Gonçalves, João Roncha, Ana Casanova, Artur Fernandes, Pedro Monterroso, Isabel Mateus. Heriberto Noppeney, Naria Radatos, Eberhard Fedtke, Ana Carla Gomes Fedtke, António Rodrigues, Marília Carneiro Andreä, Maria do Rosário Loures, Cristina Dangerfield, Luís Carvalho, José Diogo Júnior, Paula Monteirinho, Euclides Cavaco,  António da Cunha,  Duarte Justo, Isaac Nin e  Rita Sousa Uva. A ilustração da capa é de Neusa Sobrinho Amtsfeld, e o prefácio de Luísa Semedo.

A colectânea Outono Literário - Mulherio Europa em Verso e Prosa



O texto Uma Mulher de Palavra integra a colectânea Outono Literário - Mulherio Europa em Verso e Prosa, uma edição coordenada por Sonia Palma e editada pela Fátima Nascimento, Fafalag Editora. Quem estiver interessado em adquirir o livro, que está à venda por €10.00, por favor contacte a Fátima através do site:
https://www.fatimanascimento.de/

Friday, 26 October 2018

Acorda, Brasil!

"Só que a faxina agora será muito mais ampla! Esses marginais, vermelhos serão banidos de nossa pátria (...)"

"Petralhada, vai tudo vocês para a ponta da praia! Vocês não terão mais vez em nossa pátria! (...) Será uma limpeza nunca visto (sic) na história do Brasil. Bandidos do MST, bandidos do MTST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra], as acções de vocês serão tipificadas como terrorismo! (...)"

As frases acima foram retiradas do último discurso de Jair Bolsonaro, candidato à presidência do Brasil pelo PSL. Transcrevi palavra por palavra o que ele disse. Podem confirmar ouvindo os vários vídeos que circulam no Youtube. E agora, Brasil? Não vai ouvir? Ou vai fingir que ele está falando da faxina lá de casa? Da limpeza do pó das estantes da biblioteca? Que quer levar a petralhada para a ponta da praia para que possa apreciar melhor as vistas? Não, gente, ele está falando de aniquilar, prender, matar! Está dizendo que vai fazer uma limpeza aos opositores políticos e ideológicos! Isso significa a volta da prisão e do assassinato políticos! As acções do Movimento dos Sem Terra vão passar a ser crime! O tratamento será aquele reservado aos terroristas! E isso é só uma pequena amostra das barbaridades que esse homem já falou, e que estão todas devidamente documentadas em outros vídeos onde o próprio insulta negros, mulheres e homossexuais, e faz a apologia de um torturador dos tempos da ditadura. O que é preciso esse homem dizer mais, Brasil? O que é preciso acontecer, para que os brasileiros acordem e entendam que não podem votar nesse homem sem se tornarem cúmplices dessa barbárie? Hitler também falava em limpeza e proclamava a morte para comunistas e judeus, e teve o apoio que teve, e hoje nos perguntamos como foi possível? Como foi possível? Como é possível, hoje, agora, Brasil?

Saturday, 22 September 2018

Alguém que explique isto aos juízes

Dois juízes do tribunal da relação do Porto, um homem e uma mulher, assinaram um acordão que afirma que a ilicitude praticada conta uma mulher, vítima de violação quando estava inconsciente, "não é elevada", uma vez que não hove danos físicos, ou foram diminutos, nem violência. A mulher ficou inconsciente na casa-de-banho dum bar, para onde se dirigiu depois de ter ingerido bastante álcool. Os violadores eram seus conhecidos, o barman e o porteiro do bar. Foram condenados a 4 anos e meio, com pena suspensa, devido às atenuantes descritas acima, e também ao facto de a violação ter sido antecedida de um clima de "mútua sedução" e de terem ingerido também largas quantidades de bebidas alcoólicas.

Alguém que explique a estes juízes o que é a violência. Violência não significa apenas murros e pontapés. E o que dizer dos danos físicos? Não são somente nódoas negras e cabeças a sangrar, ou braços partidos. Uma "relação sexual com cópula vaginal completa", como se lê no acórdão, sem o consentimento da portadora da dita vagina, é sempre uma violência. Deixa danos físicos e psíquicos, ainda que estes não sejam visíveis. Aliás, as feridas psicológicas costumam ser muito mais graves do que as físicas, e muito mais difíceis de sarar. Uma violação é SEMPRE um acto de violência. Não é um acto de sedução nem de expressão de afecto. Portanto, mesmo com uma grande bebedeira em cima dos cornos, e depois de ter havido um clima de sedução entre os dois, se um homem opta por violar uma mulher inconsciente não está a ser guiado pelo afecto sem pela expressão afectiva Está a ser guiado por um instinto sexual predatório de dominação que o leva à violência mais pura e dura. Não há clima de sedução que o possa desculpar ou atenuar. Ou então voltamos todos para a selva e damos largas à besta que há em cada um de nós. Alguém que explique isto aos juízes. Que lhes dê aulas. É urgente uma reforma na formação desta classe profissional. A justiça não pode estar nas mãos desta ignorância atroz.

Wednesday, 18 July 2018

A edição brasileira de Uma Outra Voz já está disponível

Uma outra voz, romance de Gabriela Ruivo Trindade, vencedor do Prêmio LeYa 2013, cruza várias histórias  e pontos de vista que se intercalam e complementam, partindo da inauguração da Fábrica de Moagem e Eletricidade de Estremoz, em 1916, responsável por ter levado a energia elétrica para a região. A partir daí, acompanhamos o desenvolvimento do lugar e de seus personagens, e o modo como suas histórias se entrelaçam com a história e com as transformações profundas de um país.
João José Mariano Serrão foi um republicano convicto de que sua contribuição foi fundamental para o crescimento e desenvolvimento de Estremoz. Isso aconteceu por volta da década de 1920, quando a vila cresceu tanto que deixou de ser vila e virou cidade. É em torno desse homem determinado, mas também secreto e contido, que giram as cinco vozes que nos guiam ao longo destas páginas, numa viagem a um só tempo pessoal e coletiva, porque não raro as histórias dos narradores se cruzam com momentos-chave da história portuguesa.
Baseado em acontecimentos reais, Uma outra voz é uma ficção que nos oferece uma multiplicidade de olhares sobre a mesma paisagem, tecendo e costurando a história de uma família ao longo de um século por meio das revelações de cada um dos seus membros, numa interessante teia de complementaridade.
Casa da Palavra - LeYa Brasil, 2018:

Thursday, 8 March 2018

A mulher do outro lado do espelho

Não sei o que se passa com os espelhos desta casa. Nunca me devolvem a mesma imagem. Às vezes descubro o rosto de uma mulher jovem, muito mais jovem do que eu. É bonita e sorri-me. O sorriso dela tem a limpidez da primeira luz da manhã. O corpo também é jovem e tem aquela frescura que descobrimos no ventre da fruta madura. Gosto de olhá-lo, e de namorar com ele. Namorar apenas com o olhar. Habitá-lo como se fosse a minha casa. Fingir que não é meu, e que não sou eu que o olho, mas o olhar do desejo. Desejar exige distância. De outras vezes, é uma mulher velha que me olha. Cabelos grisalhos, rugas ao canto dos olhos e costas cansadas. Adivinho-lhe o olhar tingido de um cinzento matizado onde se entrelaçam dores muito antigas. Vêm-me à memória os novelos de linha matizada com que a minha avó crochetava naperons de renda para a mesa da cozinha e para o cesto do pão. Dura apenas breves instantes, este relâmpago. A mulher velha não sorri, apenas me fita; os seus olhos, porém, não se detêm em mim, atravessam-me como uma seta, evitam os meus como se tivessem medo. Ou talvez o medo seja meu. De outras vezes, ainda, encontro a face rechonchuda de uma mulher gorda. As carnes da mulher gorda avolumam-se nos meus olhos. Tem um sorriso patético e triste. Parece ainda escutar a voz da mãe: Ao que te deixaste chegar, Maria! A voz da mãe, num misto de compaixão e repugnância. Mas também a ela a gordura do seu corpo a embaraça. Há gente para quem olhar uma mulher gorda é o mesmo que ser insultada por ela. Essas pessoas, se tivessem poder para isso, inventariam uma lei que proibisse os gordos de saírem à rua. Naturalmente, construiriam lares e casas de acolhimento onde estes se pudessem albergar longe dos olhos do mundo. Tudo com as máximas condições de comodidade, evidentemente. Coitados, no fundo são doentes, pensam, num misto de piedade e alívio por não ser contagiosa, esta doença. Nesta altura a mulher do outro lado do espelho despe o sorriso triste juntamente com a roupa e devolve-me a sua nudez, sem pudor. Olho o seu corpo, incrédula, onde descubro a frescura e a languidez das formas de uma mulher madura. Uma mulher da minha idade. Sorrio, e namoro-me, piscando o olho ao espelho, que novamente se diverte a iludir-me a percepção. Os meus olhos deixam de ser meus. Na-morar é outra forma de morar. Morar dentro, e fora de nós. Dentro, e fora do outro. Porque só quando amamos percebemos que dentro e fora se confundem.