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Os Comeres dos Ganhões

Da Páscoa da minha infância, o que retenho é o traseiro de um senhor chamado Vadis. O Aníbal gostava da piada: é hora de ver o Quo Vadis! E todos os anos a cena se repetia. O meu primo Aníbal era ateu e comunista convicto. A livraria que fundou em Estremoz e onde distribuía livros proibidos pela censura retém o seu nome até hoje. Era também um excelente cozinheiro. Arrisco dizer que em sua casa se comia melhor do que nos mais bem cotados restaurantes da região. A Cozinha dos Ganhões, que continua a integrar a FIAPE, em Estremoz, foi ideia sua e de outros seus compadres. Os Comeres dos Ganhões , editado em 1994 pela Campo das Letras, é uma colectânea de receitas típicas muito original: antes de cada receita são reunidos testemunhos sobre a forma como aquele prato (não) era comido nos tempos em que a fome e a miséria grassavam no Alentejo. São histórias de pasmar: o trabalho de sol a sol, ou ver a ver, durava enquanto houvesse luz. A açorda pelada, assim designada porque quando c...

O Último Natal

A mulher olha a árvore de natal em silêncio. O marido está morto há muito; os filhos, num país distante. Ou terá sido ela que se ausentou para parte incerta, não tem a certeza. As velas com aroma a canela e tangerina luzem na solidão da mesa posta. Quatro pratos dispostos geometricamente, os copos altos em que a luz sanguínea de um Porto velho arde juntamente com as velas. O fumo dança no silêncio que se abate nos pratos vazios. A fruta na cristaleira adquire tons de ébano. Os minutos escorrem, vagarosos. Da casa vizinha chega-lhe o burburinho de vozes, garfos e facas em laborioso fragor, gargalhadas a espaços com o tilintar dos copos que ela adivinha de pé alto, elegantes, reluzindo a textura suave dos vinhos espumantes. E de súbito está à volta da mesa, na casa dos avós, acompanhada por aqueles que tão bem conhece, metade já mortos, mas ainda a sorrirem-lhe do espelho da memória. O espelho falso, mentiroso, da memória. Podia começar tudo de novo, pensa, enquanto se deixa inebriar pel...

Café do Cristiano

Boas tardes. Entre, menina, entre. Sim, viu logo pelo nome, não foi? O quê? Passa aqui todos os dias e nunca tinha visto este café? Deve andar distraída, que a gente já aqui está vai para cinco anos. É verdade: está aqui a minha patroa que não me deixa mentir. Então e o que vai ser? Um cafezinho? Uma meia de leite? Um bolinho? É o que está à vista: pastéis de nata, mil folhas, bolinhos de arroz, queijadas, travesseiros de Sintra... Olhe que são dos verdadeiros: trabalhei uns anos na fábrica das queijadas, em Sintra, a menina conhece? Foi lá que aprendi a receita. Também temos aqui umas broas de Natal e umas filhoses, estas foi a minha patroa que fez. Ora então é uma ucal e um pastel de nata? Sente-se, menina, sente-se que eu levo já. Aí na mesa do Cristiano Ronaldo; está a vê-lo aí na parede? Pois, ali também, e aqui nesta parede tenho mais três. É o café do Cristiano, pois, foi por causa do nome que viu que era português, não foi? Ah, mas não associou ao Cristiano Ronaldo? Então, mas...