© Gabriela Ruivo Trindade

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© Gabriela Ruivo Trindade

Sunday, 14 January 2018

Isto para mim é básico mas vou dizê-lo na mesma

O assédio e o abuso que a larga maioria das mulheres sofre não chega às notícias, nem à televisão, tão-pouco às redes sociais, porque elas são, no geral, mulheres anónimas, sem qualquer poder, com empregos precários e vidas, muitas vezes, marginais. Quando mulheres com visibilidade mediática se chegam à frente para denunciar situações de abuso, como foi o caso do movimento #meetoo, que surgiu na sequência das alegações e acusações de agressão sexual ao produtor cinematográfico Weinstein, nos EUA, elas estão, acima de tudo, a dar um exemplo de união e de força no combate a um sistema que permite que os poderosos abusem dos mais fracos. Que se organizem e se vistam de preto como forma de protesto durante a cerimónia de entrega dos Globos de Ouro só mostra que estão unidas numa causa que é milenar e que finalmente está a ser falada, discutida, denunciada e a começar a ser levada a sério. Isto, quanto a mim, devia deixar-nos solidárias.

As mulheres são as piores inimigas delas mesmas; não sabem unir-se nem cooperar umas com as outras: ouvimos frases deste tipo tantas vezes e, infelizmente, parece-me, o que se está a passar é um retrato disso mesmo. Pois quando um grupo de mulheres ousa denunciar os seus abusadores, não é raro que logo se levantem vozes apelidando-as de histéricas, puritanas, sugerindo que não passam de mulheres frustradas sexualmente, que odeiam os homens; que precisavam era de ser assediadas todos os dias para serem felizes, como sugeriu uma escritora brasileira, Danuza Leão. Vimos isso acontecer também no Brasil, no caso da acusação ao actor José Mayer, que levantou uma onda de solidariedade entre mulheres e deu origem ao #MexeuComUmaMexeuComTodas e #ChegaDeAssédio; também aqui não faltaram críticas.

Sim, acho um exagero haver quem assine contratos ou grave vídeos prévios a um contacto sexual com a declaração explícita do consentimento. É um exagero e é ridículo. Assim como censurar obras de arte só porque representam nudez é aviltante. Mas atitudes destas não podem e não devem fazer-nos duvidar da importância das denúncias das vítimas de assédio, nem relativizá-la. A exposição do sistema que permite situações de abuso continuado não pode ser comprometida nem posta em causa pelo facto de, por um lado, o puritanismo ganhar adeptos e poder para censurar exposições em lugares públicos, e, por outro, umas quantas pessoas entrarem em histeria e, aparentemente, já não confiarem no bom-senso de quem escolhem para parceiro sexual. Estas situações têm de ser, elas mesmas, expostas, denunciadas e combatidas no seu próprio terreno.

Também sou completamente contra julgamentos em praça pública e existência de sanções e represálias a quem ainda não foi julgado e condenado. Porém, mais uma vez, isso não nos pode levar a questionar as vítimas como se fossem crianças caprichosas: "estão a ver o que conseguiram com a vossa atitude?" Isto é grave e perverso, porque inverte a situação e culpabiliza a vítima (o que não é nada de novo). O agressor é sempre o único responsável pelo seu comportamento, é bom não esquecer, e, em última análise, as consequências, justas ou injustas, desse comportamento só a ele podem ser imputadas.

Na minha opinião, o afastamento de actores como Kevin Spacey, apanhados na onda de acusações, de papéis para os quais já havia compromisso contratual, reflecte, antes de mais, as fraquezas de um sistema laboral que não protege os direitos dos trabalhadores; as mesmas que permitem que mulheres grávidas sejam dispensadas dos seus cargos ou que as mulheres não sejam contratadas à partida por poderem vir a engravidar. É para aqui que devemos direccionar a nossa intolerância e indignação, e não para as vítimas que denunciam situações de assédio.

Por outro lado, não me parece nada bem deixarmos de apreciar o trabalho artístico de alguém só porque achamos que esse alguém é uma besta. Mas isto sou eu; não me permito julgar quem o faça. O que não pode acontecer é as pessoas cometerem crimes e ficarem impunes, não sofrendo as consequências dos seus actos. Mas claro, temos de as julgar primeiro. A perversão, aqui, é a tão usual falta de julgamento imparcial da própria justiça quando no banco dos réus se sentam os poderosos. E disso até temos exemplos bastantes no nosso país, e recentes.

E o que dizer da carta aberta subscrita por cerca de cem intelectuais francesas, que reconhece a violação e o abuso como crimes, e que se solidariza com a sua denúncia, mas que ao mesmo tempo acha que o movimento #meetoo deu lugar a excessos e exageros, a um puritanismo escusado, que os homens têm o direito de importunar as mulheres e que a não existência desse direito compromete a liberdade sexual? Eu diria que vai aqui uma grande confusão.

Para começar, que querem elas dizer com importunar? É que se se estão a referir a actos de sedução, escusavam de vir explicitá-lo, porque o que está em causa no movimento #meetoo são situações claras de assédio. E se estão a dizer que os homens têm o direito de assediar, das duas uma, ou não sabem a diferença entre assédio e sedução ou então estão claramente a defender as mesmas situações que começaram por concordar serem crimes graves, o que no mínimo é grave e absurdo.

Ninguém põe em causa a liberdade de seduzir; e os jogos de sedução podem levar, sim, a situações de embaraço e constrangimento; eu posso ser tão desajeitada a seduzir que acabo por criar uma situação desagradável; as relações humanas são cheias de imprevistos e comportam erros de comportamento, até porque somos todos diferentes uns dos outros e cada indivíduo tem os seus limites em relação ao que é ou não aceitável. E sim, temos o direito de seduzir com insistência, e paixão, e determinação, e assertividade. Mas caramba, alguém confunde isto com assédio sexual?

Assédio é quando alguém faz uso do próprio poder (que pode ser apenas a força física mas vai muito para além disso) para impor uma situação que pode ir do simples toque corporal à violação, sem o consentimento da outra pessoa. Repito: sem o consentimento da outra pessoa. Isto é, a outra pessoa mostra claramente, de forma verbal e/ou não verbal, que não está interessada, que não quer. E se por acaso não se manifesta é porque está claramente a ser ameaçada ou coagida, ou porque, lá está, a relação de poder/submissão com o seu agressor a deixa sem alternativa.

E aqui, não me agrada nada a ridicularização de que este assunto tem sido alvo, com a conversa dos toques no joelho, ou no ombro, ou os beijos roubados. Mais uma vez, estamos a desviar a nossa atenção da gravidade do assédio. Qualquer toque que não seja consentido ou que seja forçado é grave; como é evidente há vários graus de gravidade; a violação forçada do espaço corporal é, contudo, e em si mesma, uma situação de claro desrespeito e ameaça à integridade física e psíquica de um indivíduo. Só quem nunca sofreu este tipo de toque indesejado é que pode cair no erro de minimizar a sua gravidade. E mais uma vez, não confundamos, não falamos de toques ocasionais e mais ou menos inocentes durante uma conversa amigável, um momento de maior intimidade ou uma tentativa de sedução.

É evidente que é complicado legislar acerca de assuntos como este, que comportam em certa medida elevados graus de subjectividade. Mas isso, mais uma vez, não nos pode fazer desistir. No caso do crime de agressão física, por exemplo, ninguém duvida que a sua legislação seja um imperativo. E também podemos argumentar que um beliscão ou uma chapada não têm a mesma gravidade que matar alguém. Pois não, mas isso não desqualifica esses actos como agressões. Por outro lado, uma nódoa negra pode ser devida a uma queda ou a um encontrão; como vamos provar que foi consequência de uma agressão? Estas questões são pertinentes em termos de procedimentos legislativos, no entanto, ninguém põe em causa a necessidade da sua existência. Porque havemos de deixar que isso aconteça com o crime de assédio?


A liberdade de importunar que as senhoras francesa defendem é, quanto a mim, a liberdade de seduzir, que claramente deve ser mantida. Muito bem, se se tratava disso, escusavam de diminuir a importância do movimento #meetoo. A meu ver, onde a carta peca é precisamente na confusão que faz entre assédio e sedução, sugerindo que as mulheres que se chegaram à frente para denunciar casos de assédio estão a comprometer a liberdade sexual, a liberdade de importunar, de incomodar; fica assim no ar que isto é uma questão de liberdade. Esta generalização é perigosa. E o uso das palavras de forma abrangente, neste caso, gera equívocos e ignora o centro da questão, que é o assédio. Porque defender a liberdade e o direito de incomodar são valores preciosos a uma sociedade autónoma e madura e uma das funções essenciais do trabalho artístico. Mas a palavra incomodar, nesse contexto preciso, tem que ver com questões ideológicas; incomodar é fazer pensar, questionar, derrubar preconceitos, criar novos paradigmas. Incomodar alguém num contexto de assédio é outra coisa; é não respeitar o seu espaço de privacidade, a sua integridade física, é transgredir os seus limites, tanto físicos como emocionais. Precisamos de ser mais cuidadosos com as palavras e os seus significados, para que as mensagens sejam o mais claras possível e não dêem lugar a mal entendidos.

E por favor, não apelidemos este movimento de caça às bruxas. Isso era na idade média e as vítimas mulheres vulneráveis, na sua grande maioria, sem outra acusação que não fosse a de serem mulheres e vulneráveis. O equivalente do #meetoo na idade média, para sermos rigorosos do ponto de vista histórico, seria as chamadas bruxas terem tido a força e o poder de se unirem contra os seus algozes. A diferença entre os tempos actuais e a idade média é que, hoje em dia, as vítimas de abuso não são caçadas e executadas sumariamente. E não nos podemos esquecer que há sociedades que ainda conservam, nas suas práticas sociais e poderes instituídos, versões desta violência medieval contra mulheres e grupos mais vulneráveis, como castas e classes consideradas inferiores na hierarquia social, pessoas sem terra, homossexuais, transsexuais... Os exemplos são inúmeros.

Porque não percebemos de uma vez, mulheres e também homens, que é contra esta violência que devemos unir-nos? E isto não significa que não possamos discutir e argumentar e discordar; significa tão-só que, em lugar de nos boicotarmos umas às outras, nos mostremos solidárias e encontremos caminhos que minem de uma vez a mentalidade machista que nos assola há séculos, e que permite, por exemplo, que um juiz em Portugal ilibe dois agressores por a vítima ter cometido adultério. Isto é medieval, aconteceu há meses no nosso país e eu vi muita gente indignada, é um facto, mas depois a coisa passa e fica por aí... E os poderosos protegem-se uns aos outros e nós baixamos a cabeça.

Talvez fosse mais proveitoso olharmos para o exemplo do #meetoo e iniciarmos ondas de contestação semelhantes que realmente vingassem e abanassem alguns dos poderes instituídos. Em suma, não permitir que o que nos divide nos enfraqueça; antes usá-lo para garantir a diversidade e o respeito (de opiniões, de pontos de vista); e que, dessa diversidade possamos aprender uns com os outros, fortalecendo-nos. Para mim, é este o legado do #meetoo que importa preservar.

Wednesday, 4 October 2017

Miúda Children's Books in Portuguese

Lembram-se da Miúda? A livraria online sediada em Londres, especializada em livros infantis em língua portuguesa? Pois a livraria passou por um processo de transição e conta agora com uma nova directora. Adivinhem quem? Eu mesma.

Recordo aqui o texto que escrevi sobre a Miúda há já algum tempo:

Em Londres, a comunidade portuguesa já soma para cima de 30 000 habitantes. Uma das grandes preocupações de quem emigra, no caso de ter crianças, é a adaptação à nova língua e as possíveis consequências para a aprendizagem e o progresso escolar. Isto numa primeira fase, antes mesmo de apanhar o avião. Porque, uma vez chegados, instalados, e as crianças na escola, rapidamente nos apercebemos de que não é essa a grande preocupação, uma vez que, regra geral, as crianças têm um poder de assimilação de uma nova língua incrível. A dor de cabeça passa, assim, a ser outra: a preservação da língua materna. Os miúdos ficam completamente submergidos num meio onde a língua inglesa é predominante. Rapidamente deixam de falar português fluentemente, apesar de nunca perderem a compreensão do idioma, e isto se nós continuarmos a falar em português com eles, porque caso contrário mesmo essa capacidade enferrujará com os anos. A língua é de facto uma ferramenta como outra qualquer: a falta de uso traz a inevitável oxidação e a consequente inutilidade.

Posto isto, uma vez confrontados com esta realidade, a nossa constante preocupação de pais é que as crianças não percam, ou percam o menos possível, o contacto com a sua própria língua. Neste aspecto, os livros representam, sem dúvida, um meio privilegiado e particularmente rico. Foi a pensar nisto que Carla Cruz, uma portuguesa a viver em Londres, mãe de crianças pequenas, meteu mãos à obra e abriu uma livraria online onde se podem encomendar livros de língua portuguesa para crianças a partir do Reino Unido. A ideia é bestial, já que permite aceder aos livros publicados em Portugal a preços razoáveis. A livraria chama-se Miúda Children's Books in Portuguese e pode ser visitada aqui:

http://www.miudabooks.co.uk/

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Resta dizer que a livraria mantém o espírito e os objectivos. Esperamos a sua visita!

Thursday, 6 April 2017

"Mexeu com uma, mexeu com todas"

O caso de assédio da Globo retrata bem, mas tão bem as dinâmicas em jogo em casos de assédio que parece ter acontecido para nos dar uma lição.
"Não, o cara não representa ameaça."
"É alguém que a gente conhece."
"Não fez por mal, foi uma brincadeira."
etc, etc, etc
Frases típicas saídas da boca de homens (e também de algumas mulheres). Pessoas que se solidarizam com o agressor porque o conhecem, é boa pessoa, e acham que este não seria capaz de fazer realmente mal a alguém.
Pois esse é o problema. A nossa incapacidade de reconhecer que as boas pessoas (aqueles que a gente considera como tal) são capazes de actos condenáveis. Todos nós, aliás.
As frases acima também demonstram a tentativa de minimizar esses actos. Afinal, uns piropos, que mal tem? Se não gostas de ouvir, ignora! Pôs a mão na perna, no braço, no peito, na vagina? Ah, releva! Não deixou marca, pois não?
Pois que fique bem claro: deixou, sim. Deixa marca sempre. TUDO: os olhares, os piropos, as mãos e outras partes do corpo, deixam sempre marca. Na alma, que é onde a marca fica para sempre (as do corpo geralmente desaparecem com o tempo).
Eu tendo a achar que homens e mulheres não diferem tanto assim: em inteligência, em sensibilidade, em capacidade de discernimento. Mas há uma categoria em que divergimos, sim, e esta é a experiência de vida. A socialização. No caso concreto do assédio, a exposição ao mesmo é largamente um problema das mulheres. É claro que também há mulheres que assediam homens, mas o assédio está claramente associado a uma relação de poder e, convenhamos, o número de mulheres em cargos de poder é muito menor do que o de homens. Por isso, se reuníssemos cem homens numa sala, acredito que alguns deles tivessem passado pela experiência de terem sido assediados (por mulheres ou por homens). Mas se reunirmos cem mulheres numa sala, sabe quantas terão histórias de assédio para contar? Quantas? Eu arrisco dizer que, com toda a certeza, as cem terão.
E começa muito cedo: há aquelas que o são em casa, às mãos de pais, ou irmãos mais velhos, ou tios, ou avôs (atenção que também podem ser as mães, irmãs mais velhas, tias, avós. Há casos de mulheres agressoras, mas os números são muito menores). Para essas,  começa cedo de mais. Para as outras, assim que o corpo toma formas, por volta dos 11, 12, 13 anos. Na rua, olhares de lado, assobios, frases ditas ao ouvido, às vezes mãos que nos tocam o corpo. No autocarro, no metro, tipos que se encostam, nos apalpam, quase sempre no meio das enchentes na hora de ponta. É assim que começa e não vai parar nunca. Todas nós sabemos o que é isso, porque tivemos, muito novinhas, de desenvolver uma espécie de armadura, de carapaça para nos protegermos, uma espécie de insensibilidade, que nos permitisse não nos sentirmos demasiado tocadas por este tipo de agressão; que nos permitisse conservar a auto-estima ao abrigo destes "arranhões e pequenos cortes". O que quer dizer que precisámos de ignorar a dor, a humilhação e a revolta que tais actos nos provocaram. Tenho a certeza de que não há uma única mulher no mundo que não tenha, pelo menos, uma história de assédio para contar. E é por isso que estamos fartas. É por isso que precisamos de dizer, a uma voz: deixa marca sim. Magoa sim. Enoja. Humilha. E chega. Chega de assédio. Mexeu com uma, mexeu com todas.

#ChegaDeAssédio
#MexeuComUmaMexeuComTodas

Wednesday, 22 February 2017

Fados Nunca Dantes Navegados


O projecto Fados Nunca Dantes Navegados, em co-autoria com a Sandra Marques, e que reúne fotografia e ficção narrativa, foi publicado em parte da Revista Egoísta de Dezembro e encontra-se agora disponível online, na íntegra. Aceda ao site clicando aqui: https://gabrielaruivo1.wixsite.com/fados

Friday, 14 October 2016

Poetas na Diáspora - Antologia


A I Antologia de Poetas na Diáspora (Oxalá Editora - Autores da Diáspora), contemplando 21 poetas de vários países, chegará em breve a algumas livrarias em Portugal, e já se encontra disponível aqui.

Monday, 10 October 2016

Grandes e pequenos idiotas

Assim como há grandes e pequenos filhos da puta, também há grandes e pequenos idiotas. Os pequenos idiotas não trazem grande mossa ao mundo; já os grandes idiotas não podem passar despercebidos. Não estando nunca contentes com o seu tamanho, esforçam-se constantemente por ser maiores e melhores idiotas. Claro que se acham o máximo, e claro que os outros é que são os idiotas, na sua perspectiva. As suas opiniões deveriam até ser emolduradas a ouro e penduradas nas paredes. Que digo eu? Deviam erguer-se monumentos nacionais às suas ideias brilhantes e visionárias. O grande drama do grande idiota é precisamente este: ninguém parece reparar que só do seu cérebro milagroso é que brotam pérolas dignas desse nome, que só da sua mente genial é que se eleva, qual ave rara e perfeita, a verdade absoluta. Que fazer, então, para que o mundo repare neles? Aqui começa a grande luta do grande idiota. Há que embandeirar a maravilhosa e prodigiosa obra da natureza que transportam nos seus crânios. E, claro, como grandes idiotas que são, só encontram uma maneira de o fazer: derrotando todos os edifícios ideológicos diferentes do seu; as ideias e opiniões que não coincidem com as suas, as teorias que abarcam diferentes pontos de vista, tudo isso é reduzido a pó, espezinhado, enxovalhado, calcado com ambos os pés, e cuspido em cima. Mas aqui os grandes idiotas cometem um erro crasso (como não poderia deixar de ser, dada a sua condição de grandes idiotas): em lugar das ideias alheias, eles atacam as pessoas que têm essas ideias. Em vez de discutir e argumentar, eles apenas sabem ofender e humilhar verbalmente quem manifesta uma opinião contrária. E neste ataque pessoal tudo vale, o objectivo é só um: denegrir e humilhar o outro. Estratégia que revela bem o quão pobres de espírito estes grandes idiotas realmente são.

Outra das características dos grandes idiotas é que nunca dão o braço a torcer. Recuar, pedir desculpa? Que é isso? Que humilhação para suas excelências! Aliás, eles NUNCA se enganam. NUNCA se excedem, NUNCA exageram, NUNCA fazem nada errado. Ou não fossem eles donos e senhores da VERDADE ÚNICA E INQUESTIONÁVEL. Têm uma missão na terra, que é a de combater eficaz e ferozmente a imbecilidade dominante (a dos outros, como é evidente), responsável, segundo eles, pelos grandes males da humanidade. E nesse combate levam tudo à frente.

Desgraçadamente, o seu discurso assemelha-se perigosamente ao de um presidente de um país, que também ele, querendo erradicar o mal e a podridão da face da terra para assim dar lugar ao florescimento da, segundo ele, raça superior, usou um povo inteiro como bode expiatório, com o resultado que todos nós tão bem conhecemos. O perigo para a humanidade que os grandes idiotas representam torna-se claro, precisamente, quando eles chegam (ou ficam prestes a chegar) a altos cargos de poder, onde têm nas mãos as armas para decidir sobre a vida de milhões de pessoas.

Wednesday, 22 June 2016

Apaixonei-me por um livro

23 de Março de 2009
O meu livro muito amado: corpo delicado, mãos pequenas, unhas roídas, olhar doce e cabelos fartos, negros, que lhe caem em cachos até ao pescoço. Eu vivia para aquele livro: esperava pelas idas ao teatro como se apenas ali, naquele espaço mágico, me fosse possível respirar. Naquela altura desconhecia que a rapariga que eu amava era um livro, assim como todas as pessoas que eu conhecia. Só o soube depois de morto. Que fosse preciso morrer para me aperceber de uma coisa tão óbvia é espantoso. Serão os vivos todos cegos como eu era?

As pessoas são livros porque têm muitas páginas. Quando olhamos alguém vemos apenas a página de rosto, tal como quando olhamos um livro. Ao abri-lo, outras páginas se revelam; porém, só uma de cada vez: há sempre aquelas que permanecem ocultas. O mesmo se passa com as pessoas.

Os livros que amamos, aqueles que nos conquistam, são os que lemos até ao fim, vencidos; os mesmos que, chegados à última página, não queremos que terminem e continuamos, em delírio, a folheá-los, numa teimosia que nos transforma, de súbito, em escritores-fantasma.

Os livros, tal como as pessoas, não podem ser abertos de qualquer maneira. Manusear um livro exige delicadeza. As pessoas recuam se as lermos sem o mínimo de cuidado. Antes de abrir um livro, o toque é essencial. A capa, a lombada, a folha e só depois o toque da palavra. 

7 de Agosto de 2001
Antes de eu morrer, morava em Fajã da Ovelha com os meus avós maternos. Isto depois do acidente de viação que vitimou os meus pais, tinha eu apenas cinco anos. O meu avô paterno, que já nessa altura era viúvo, queria que eu fosse viver com ele para o Funchal e tentou convencer o meu avô materno, usando argumentos que visavam a minha educação e as oportunidades que uma vida citadina, segundo ele, ofereciam; este, no entanto, não se deixou levar na conversa, frisando que em Fajã da Ovelha também havia escola; além disso, dizia ele, apoiado pela minha avó, uma criança precisa, acima de tudo, de uma mãe e, na falta desta, uma avó desempenha melhor do que ninguém esse papel.

Assim foi. Eu vivia com os pais da minha mãe numa rua inclinada, onde os carros não chegavam e aos sábados o meu avô, pai do meu pai, estacionava o Ford Mondeo ao pé da Igreja e vinha buscar-me. A Igreja era branca e desaparecia nos dias de nevoeiro. Uma vez no Funchal, almoçávamos sempre no mesmo restaurante, íamos ao teatro e dávamos umas voltas pelo porto e a marina se estava bom tempo. Eu gostava de ouvir o grito dos cruzeiros que abandonavam o porto. As prateleiras da casa do meu avô estavam repletas de livros. Todos os sábados ele me dava um, acrescentando que os livros, tal como os cruzeiros, podiam levar-me a ver o mundo.

20 de Fevereiro de 2010
Naquele sábado a enxurrada apanhou-nos na estrada. Foi tão rápido que não me recordo. Estava sentado no lugar do morto, ao lado do meu avô e olhava a chuva que caía em cascata no vidro enquanto os limpa-pára brisas, no máximo, executavam a sua dança mecânica. No segundo a seguir já não estava ali. Uma árvore caída, arrastada na fúria das águas, embateu no carro. Fomos varridos ribanceira abaixo até ao mar.

O lamaçal invadiu o Teatro Municipal Baltazar Dias, o mesmo onde tantas vezes assistíramos a espectáculos e concertos de música. Era uma imagem desoladora. Eu e o meu avô pairámos por ali dia e noite, completamente desconsolados. Aquela passou a ser a nossa morada. Os mortos vivem nos sítios onde foram felizes.

17 de Junho de 2008
Foi neste teatro que conheci o livro por quem me apaixonei. Ela vinha com a mãe e a irmã e sentavam-se no camarote ao lado da nosso. Durante o espectáculo, eu imaginava os olhos dela pousados nas mesmas coisas que os meus e isso era o mais parecido com uma carícia a que me atrevia. O mesmo acontecia à noite quando, ao mirar a lua, acreditava que ela a olhava também, naquele preciso instante e só isso era suficiente para me sentir imensamente feliz.

8 de Abril de 2009
Às vezes penso que comecei a amá-la quando a vi chorar numa peça de teatro mais dramática. As lágrimas corriam-lhe pelo rosto e toda ela era um silêncio profundo. Desconfio de que ninguém deu por aquelas lágrimas e eu só fui testemunha porque estava mais interessado em observá-la pelo canto do olho do que na cena que se desenrolava no palco. De outras vezes creio que o meu coração ficou cativo numa noite em que veio uma pianista famosa dar um concerto. Não me lembro do nome da pianista mas sim da música que lhe voava dos dedos e do modo como, arrebatado, levitei pela sala. A sensação era quase a mesma de agora, depois de morto.

As luzes no palco completam a magia: notas de um piano, voz, uma silhueta, cabelos incendiados, rosto oculto e desvendado no jogo de sombras e contraluz; a voz que respira em nós; o som da guitarra, do acordeão; um rio de sons e a beleza de um perfil, de uma boca; a beleza nua do mundo; a beleza de uma tragédia sem o peso da tragédia; o peso da leveza, o peso da ternura. 

13 de Janeiro de 2016
O meu coração, apesar de parado há seis anos, continua a sobressaltar-se de cada vez que ela vem ao teatro. Na minha condição já não preciso de abrir os livros para os ler. Sei que moro nas suas páginas juntamente com a dor da minha ausência. Sofre de saudade crónica. O que lhe custa mais, eu sei, é não me ter visto uma última vez. Como dizer-lhe que não devemos nunca despedir-nos de um grande amor ou de uma paixão do tamanho da própria vida? O que teria sido de mim se soubesse que ia morrer naquele segundo exacto, ainda que um escasso segundo antes?

11 de Abril de 2016
De há uns tempos para cá os escritores vêm ao teatro todos os anos. Vêm também jornalistas entrevistar os escritores. Falam de literatura e de arte. Vão às escolas, levam livros às nossas crianças, lêem-lhes histórias. Ela, o meu livro mais amado, está cá sempre, com a mãe e a irmã, a assistir ao festival literário. No camarote que eu e o meu avô ocupávamos senta-se agora um outro rapaz com o pai.

Vi-lhes nascer o amor em pequenos gestos. Vi-o crescer. Vi-os abandonar os camarotes e sentarem-se lado a lado na plateia. Vi-os conversar, rir, perder o olhar um no outro como só os apaixonados são capazes. Vi-os escutar as conversas dos escritores de mãos dadas, ouvir música de olhos fechados e cantar na escuridão dos concertos como se gritassem o nome um do outro em surdina. Os mortos, felizmente, não sentem ciúmes.


16 de Abril de 2016
Os escritores trazem palavras e vida a este teatro. Saberão o quanto iluminam as ruas? São uma espécie de família empenhada em expandir a sua fé no poder da literatura. Os escritores acreditam que os livros nos salvam. Desconhecem, contudo, que as pessoas são livros; ou melhor, sabem-no melhor do que ninguém mas pensam que tal ideia é uma metáfora. Estão convencidos, aliás, de que a vida é uma alegoria. E que lhes cabe a si descodificar o mundo e como tal fazem um esforço considerável para tornar as suas palavras, a sua linguagem muito própria, inteligível para o comum dos mortais. As pessoas, porém, são livros, todas elas; e não no sentido metafórico. Cada uma com uma linguagem única. A diferença entre elas e os escritores é que os últimos insistem em traduzir a multiplicidade de páginas que trazem dentro, sofrem de uma compulsão comunicativa, as suas palavras precisam de encontrar outras e definham se não vêem a própria luz disseminada pela humanidade inteira, ainda que seja no silêncio que melhor se escutam e ganham sentido. Já as primeiras, guardam para si as suas histórias e contentam-se com a reclusão que o anonimato acarreta: são os diários esquecidos dentro de gavetas ou os livros que nunca se escrevem por receio ou pudor.


Depois de seis dias a ouvir escritores discorrer sobre falsidade e verdade na literatura e no cinema, sobre direitos humanos, alteridade, religião, biografia e muito mais, estou capaz de escrever um livro. Os defuntos perdem as páginas assim como as árvores perdem as folhas. A morte é o inverno da existência. Eu, todavia, revolto-me contra a morte, não me resigno à ideia de nunca mais poder tocar o meu livro amado. Conhecer-lhe as páginas de cor não basta. O amor exige o bater do coração que já não me mora no peito. Por isso reescrevo a minha história: para que venha a primavera e com ela, novas páginas onde possa reinventar-me e, quem sabe, partir finalmente num desses cruzeiros que deixam para trás um ronco surdo pairando nas nuvens.

(texto publicado na rubrica Diário do Jornal de Letras de 8 a 21 de Junho de 2016)