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Retrato em branco e preto

Essa fotografia morava numa prateleira alta de um armário em casa dos meus avós. Nessa altura todas as prateleiras eram altas. Eu pedia para vê-la e a minha avó fazia-me sempre a vontade. Tirava-a da estante e, sentando-me no colo, ajudava-me a encontrar a embrulhadinha. A embrulhadinha era uma menina, assim da minha idade, acho até que com a mesma cara (pelo menos o cabelo era igual), que espreitava do meio da pequena multidão que me olhava da fotografia. Tinha uma manta ou um cobertor a envolvê-la, e por isso estava embrulhada, aconchegada, tapadinha, como se dormisse, mas em pé. Daí o nome, embrulhadinha. Era uma excitação procurá-la no meio de todas aquelas caras de gente crescida, olhos negros e bocas murchas, tezes cinzentas e cabelos, barbas e bigodes escurecidos pelo preto e branco. Cada figurinha tinha o tamanho da ponta do meu dedo mindinho, e havia tantas, lado a lado, em carreirinhas, que encontrar fosse quem fosse já era uma proeza. Ainda hoje não sei quem eram aquelas pes...

Uma Mulher De Palavra

Era uma mulher de palavra. As palavras nasciam-lhe nos braços e derramavam-se pelas mãos abertas. Fugiam-lhe entre os dedos. Era uma mulher de palavra, e ficava sem palavras. A voz perdia-se nos labririntos dos argumentos e emudecia nos becos sem luz das trocas azedas de palavras; palavras gastas à bruta e à pressa, mal nascidas, cuspidas, vomitadas, violadas; a ela, uma mulher de palavra, a voz atraiçoada. Quando cantava abria o peito aos pássaros e esquecia as palavras; esquecidas, as palavras antes esfaqueadas ganhavam força e melodia e voavam aladas nas alturas, mergulhavam na água das nuvens, mexiam o corpo e dançavam; caíam, exaustas, e escorriam languidamente pelo pescoço de Deus, volúpia interdita e apetecida, interrompida por meias palavras, murmúrios, rios silenciosos de asas nocturnas, risadas cristalinas, água espelhada no charco de um olhar minucioso, íntimo, um olhar preciso, atento, irrequieto, pronto a morder. As palavras iam e vinham, nasciam, morriam-lhe na boca, a el...

Transpiração

A água ferve. A cabeça voa. O pensamento corre, da faixa azul de azulejos em cima do fogão para a parede branca, e desta para o brilho metálico dos talheres lavados. A água a ferver. A cabeça a latejar. O pensamento a correr pelo chão de mosaicos, a deter-se na linha de luz junto à porta, um bocado de sol a rasgar o chão. O chão líquido no olhar alucinado. A tua voz já não mora aqui. Há muito que o desejo da tua voz lhe ocupou o lugar, na mesa da cozinha, no sofá da sala, no lado direito da cama. O desejo da tua voz é o mais parecido que há com uma dor de ouvidos. A água ferve. O vapor espalha-se no ar tépido. Levanto-me e apago o lume. Tiro uma caneca da prateleira e um pacote de chá da caixa preta, com letras brancas, onde a palavra chá é, de súbito, uma obscenidade. Num relance, vejo-te o corpo nu, a escorrer água, saído do duche. A toalha turca numa intimidade que me arrepia os cabelos da nuca. A tua boca húmida, ligeiramente aberta, a deixar entrever o branco dos dentes. E uma pal...

Temperatura

Encontrava-se a um canto da cama, o corpo enrolado, como morto. As costas deixavam de lhe pertencer. Era um caracol, protegido pela concha dura. Nas costas ardia-lhe qualquer coisa húmida. Não sabia o que era. A sensação era semelhante à da mão da mãe, e, ao mesmo tempo, substancialmente diferente. Este toque acordava-lhe qualquer coisa debaixo da pele, como se formigas incandescentes se passeassem pelos seus braços e pernas, detendo-se em turbilhão na barriga, ameaçando explodir. Era por isso que se encolhia e enrolava sobre si mesma: para abafar aquela vertigem no centro do corpo. Paralizava os músculos, tornava-os de pedra, para que nada sentissem. Erguia muro atrás de muro até as costas estarem longe, muito longe de si. Dentro das muralhas ficava quieta, muda, adormecida, igual a uma estátua; e com tanta força cerrava os olhos e os sentidos que chegava a acreditar que não estava ali, que estava trancada dentro da fortaleza de pedra que era o seu corpo e que nada a podia tocar. A co...

Por Este Mundo Acima, de Patrícia Reis

Movemo-nos numa noite escura. Os passos frágeis, à flor da escuridão. O ar irrespirável. Sobrevivemos, e não queremos crer nessa possibilidade. À nossa volta, o cenário esmagador da realidade, da destruição extrema. Percebe-se que aconteceu uma catástrofe nuclear a nível global; porém, os pormenores, os detalhes de tal cenário escasseiam. Apenas a geografia familiar completamente esventrada, exposta na sua estranha crueldade, uma crueza esmagadora. A minha leitura é a de que este cenário é apenas isso: um cenário, um pano de fundo, porque esta viagem é essencialmente interna. Os recantos cheios de sombras, a derrocada, os cadáveres dos edifícios, as bocas de esgoto a deitar por fora, o lixo, o cheiros, o arrepio do medo, estão cá dentro, dentro de cada um de nós, dentro de quem sobrevive todos os dias, e nessa busca desesperada volta à dimensão física, animal, da existência. Porque é no corpo e nas suas necessidades que tudo começa e acaba. É o corpo que é real, e, paradoxalmente, só o...

A escrita sem palavras

Li a entrevista que o Mia Couto deu à  Ler  já há alguns meses, e fiquei surpresa com algo que ele refere, porque nunca tal me tinha passado pela cabeça. A alturas tantas ele sugere que terá feito qualquer coisa como um esforço consciente para se livrar do estigma de ser apenas  "aquele tipo que inventa umas palavras" . Quis mostrar para si mesmo, mais do que para os outros, que a sua escrita era mais do que isso, e que os neologismos que a caracterizam não a determinam nem sequer são a sua marca predominante. Isto vinha na sequência da ideia de que muita gente, de facto, o vê, e vê a sua escrita, dessa forma, isto é, ter-se-à formado, na cabeça de algumas pessoas, a imagem do Mia, como escritor, apenas como aquele tipo que escreve bem porque inventa umas palavras bonitas e tal. O inventar palavras seria assim encarado como um artifício, um malabarismo, um truque que atravessa os seus livros e a sua escrita, e sem o qual esta não seria a mesma. O que me surpreendeu não f...

Um Pai em Nascimento, de José Eduardo Agualusa

"O meu filho está na idade do polvo - a todo o momento nascem-lhe imprevistos braços e as respectivas mãos."  É assim que começa uma das crónicas do livro de José Eduardo Agualusa,  Um Pai em Nascimento . Lembrava-me desta frase, nunca mais a esqueci, desde um dia, já há alguns anos, em que achei que não havia melhor forma de descrever aquela idade em que as crianças se lançam na exploração do mundo, virando-o de pernas para o ar, e a nós com ele, pelo que agarrei na  Pais & Filhos  de então e fotocopiei a última página (espero que não se lembrem de me autuar por atentado aos direitos de autor ao fim de tanto tempo) para levar para uma sessão de formação que leccionava na altura a um grupo de futuras amas e auxiliares de educação. Lembro-me, aliás, que o que realmente pretendia era introduzir alguma corrente de ar, digamos assim, naquelas sessões, onde tinha de ir falando sobre as primeiras etapas do desenvolvimento infantil. Uma aragem fresca num assunto que fac...